domingo, 10 de maio de 2009

Sobre superar-se.

Assim mesmo, sem reticências. Me superei de uma forma que acredito não ser mais possível em nenhum outro momento da minha vida, ainda que eu faça coisas inusitadas e improváveis em qualquer outra situação.
Em 18 de janeiro desse ano acordei com uma baita dor no pulmão. Só de respirar doía fundo. Muitos cigarros na noite anterior. No dia anterior. Há muito tempo... Achei que seria um bom momento para parar de fumar. O péssimo é que essa determinação durou 3 horas. O tempo que levou para ficar suportável fumar, sem que meus pulmões doessem tanto. (Nossa, lendo isso me arrepio pelo grau de dependência que eu tinha do cigarro...) Mas dia seguinte, a dor no peito que começou forte, ao acordar, foi ficando difícil no decorrer do dia. E a dor não deixou que eu fumasse por todo aquele dia. Depois de uma sucessão de atos inesquecíveis de amigos, cá estou, três meses e 17 dias depois de parar de fumar (não definitivamente, porquealgumas vezes dei alguns tragos). Hoje, dia das mães, passei de uma forma que nem em um sonho mais louco que eu pudesse ter eu chegaria perto: pela manhã, meus filhos, minha sobrinha e minha irmã me viram largar na Corrida da União Européia, para o percurso de 5 km. Minha terceira corrida, desde 21 de abril. quando participei da corrida de revezamento com equipe de 8. Vi que era possível! E mais que chegar, fiz isso em um tempo bom pra principiante. Nossa, resultado que eu não esperava! Na segunda, no dia do trabalhador, outro tempo e colocação ótimos, bem melhores que os anteriores. Mas hoje, mesmo fazendo tempo maior, a colocação me deixou pasma, porque realmente nunca esperaria isso: entre 189 mulheres que correram os 5km, fiquei em 17º; dentre as 31 mulheres entre 35 e 39 anos, fiquei em 3º!!!!!
E aí, só penso que podemos tudo. Nada realmente é impossível. Nada mesmo. Incrível essas possibilidades todas que temos. Triste como deixamos passar, muitas vezes, as melhores. Aquelas que nos levariam a caminhos mais justos com a gente mesmo. Mais corretos com o outro. Mais atuantes. Mas dessa vez tenho a certeza que peguei um dos bichinhos certos, um dos caminhos bacanas dentre todas as opções que tive - e tenho. E continuo correndo nele. Literalmente...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

21 de abril a 21 de abril: um balanço.


21 de abril de 2008:
- afogada em uma dor de amor;
- uma carteira de cigarros por dia;
- várias doses de várias bebidas;
- segurança: emprego formal;

21 de abril de 2009:
- coração leve;
- 7 km de corrida por dia;
- primeira corrida (revezamento, 31'58");
- sem bebidas;
- desafios: oportunidade de mudar de vida;


Então, mudanças são possíveis. Acontecem. Basta querer. Faltam coisinhas na minha vida, mas não falta vida...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Álvaro de Campos...por Berhania.



Sexta-feira 13. Pós encontro com mulheresflorespoemas. Ainda em estado de langor poético.
Então, presente pré-findi: Pessoa, em Campos (vale à pena ouvir Bethania, no Dentro do Mar tem Rio. Escandaloso...).


Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.
(Poesiaimagem de Klimt, com sua Árvore da Vida)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Solidão. Uma Pasárgada ressignificada?




Palavra danada, que anda falando muito aos meus ouvidos nos últimos tempos: SOLIDÃO. A danadinha pulula entre meus pensamentos e sentimentos. O estar só me dá espaço e tempo para pensar nisso, de ser só. Parece óbvio e bobo - talvez até seja mesmo -, mas o tema gera boas reflexões sobre nós mesmos, o amor, o outro, a vida enfim, muitas das quais não fazem sentido se estamos junto (aí, são outras as palavras....ou as mesmas, pensadas do lado de lá). Além do quê, provocou tanta gente boa a produzir belas obras em seu nome, e sob olhares tão diversos...e, talvez de forma inconsciente, esteja eu atuando sobre a energia dos autores que me encontram, pois que ando esbarrando muito com ela, essa 'lava que cobre tudo' (É, Paulinho é um dos grandes que referenciam e traduzem seus sentidos na minha vida...), a solidão. Em poesia, em prosa, em conversa. Em rima, frases curtas. Em histórias cotidianas, onde essa 'palavra cavada no coração' se revela em algum momento; ou em vários. E a danada troca de roupa, ou usa vários acessórios, dependendo da situação: pode vir ornada de dor sem esperança (só lembrar de Luz Negra, do Cazuza, já dá vontade de morrer de melancolia..."Sempre só, eu vivo procurando, procurando alguém que sofra como eu, também. Mas não consigo achar ninguém"...putz, mata.); louca de rancores e ódio (li dia desses frase estarrecedora, porque tão humana: 'o veneno que tomo desejando que o outro morra'. Não sei de quem é...); languidamente acostada na tristeza, dama tão doce nesse trechinho de Renúncia, do Manuel Bandeira:

Encerra em ti tua tristeza inteira.

E pede humildemente a Deus que a faça

Tua doce e constante companheira.


Ou tão suave, mentora, diáfana e leve, porque despida do peso da esperança, como em Elisa:

Hoje acordei triste

muito triste

mas com a pele boa,

muito boas mãos

as mãos macias

achei até que deveria

ser o fato de eu ter espremido

limas-da-pérsia logo pela manhã.


Suave

a voz doce

pernas leves sobre a casa

camisola ponta de asa

tocando de leve os calcanhares

estava triste

e tudo muito sereno e esbelto em mim.


Hoje não concluo,

escolho dúvidas:

será que às vezes a tristeza,

como um esmeril paciente,

burila?

Afina a gente?


(O esmeril, feito prá Viviane Mosé)


É. Louco esse sentimento, que independente do tipo de roupa que usa prá entrar na nossa cena, trás consigo uma passagem, só de ida, prá uma praia deserta, consigo mesmo (num certo sentido, é sempre praia deserta). E assim, é melhor aproveitar mesmo, se divertir, porque pode ser uma estada, uma parada. Ou, uma opção que podemos abraçar, ou sermos por ela abraçados. De uma forma ou de outra, é hora de ver se somos boas companhias, na viagem ao nosso próprio lado. Parece até simplizinho, colocado dessa forma, mas até pode ser. E digo isso porque acho que um dos problemas da nossa gente, por esses tempos de crises de toda sorte e medida, é não acreditar no próprio potencial prá lidar com certas situações. A solidão é uma delas. Somos massificados pela propaganda diária em todos os veículos com casais lindos, famílias, tudo perfeito e coisa e tal, amores de novela cuja paixão dura a vida. E como única opção possível de felicidade ("quem pode querer ser feliz, se não for por um bem de amor..."). No dia-a-dia, no mano-a-mano, é que vemos que a fórmula eu + outro = felicidade eterna não é a regra. Pode ser de muitos casais, mas vejo mais desencontros nessa vida de meu Deus do que gostaria. Aí vem realmente o ponto norteador desse tanto de conversa: então, a solidão realmente se traduz por ausências doídas? Sempre é sinal da falta do outro? E a cada vez que encontro, mais aleatória que premeditadamente, referências à solidão, vou ruminando as idéias e elaborando minhas teorias do sentir, como apresento nessas linhas.

Viviane Mosé e Elisa Lucinda, cujas palavras são encantos na minha vida, me trazem outros tantos fios de meada que recupero nas vivências, nas situações nas quais meu olhar se torna cada vez mais poético. E, como espero, mais amplo. E ambas, ao tratarem da solidão, revelam formas diferentes de lidar com a danada. Com o mesmo conteúdo: a poesia.

Confesso que a perspectiva da Elisa me enche de aconchego, porque em suas palavraspoemas há uma crença forte no outro. No amor. No estar junto. Solidão não. Ela quer o outro e tudo que vem junto e confessa suas 'fraquezas' perante a idéia da solidão:

Passa por mim o velho barco

me convidando

a um mar que não me interessa.

Passa por mim com pressa

esse velho mar

de não ter porto

nem amor

nem braços aonde chegar.

Passa por mim esse velho conhecido mar.

Olho-o com olhos de não quero ir.

Passa por mim a velha estrada de água

onde eu nunca soube muito bem nadar.

Quero a terra firme

e nela andar rente

e de mãos dadas prá todo o sempre.

Nunca mais ímpar

nunca mais sem me dar

não quero mais minha mão sozinha

nunca mais sem par.


(Visita da Solidão, em A fúria da beleza)


Em Viviane encontro outras possibilidades na solidão: eu, silêncio, espaço, tempo. Seu paradoxo: como viver na solidão? Como viver sem solidão?

Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,

expulsar de mim essa nossa senhora ciumenta.

Madona sedenta de versos. Mas tive medo.

Medo de que a solidão ao sair

levasse a imensidão onde me deito.

Ausência de espelhos que dissolve a falta,

a fraqueza, a preguiça. E me faz vento,

pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.

Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,

onde tudo é grave e único.

E me mantive quieta e muda.


(trecho de Prosa Patética, no Toda Palavra)

Se existem tantas formas de sentir a solidão, então, como dizer que é ruim estar só, ser só? A solidão pode sim independer do outro. Porque é um daqueles sentimentos incompartilháveis. Daqueles que, gota a gota, tomamos em um copo só. Com nosso nome. Nesse ponto da questão, trago as sensibilidades de O escafandro e a borboleta, que caem como luvas. Ou melhor, borboletas... Nesse filme, que só assisti há pouco, encontro Jean-Doo, preso em si mesmo, refém no seu próprio corpo. Na solidão da quase incomunicabilidade da sua relação com o mundo, só rompido tenuamente pelo seu olhar, sai de seu torpor vitimista ao 'agarrar-se ao que havia de humano em si' (uma fala do filme, essencial...). Uma das várias delicadezas desse filme, daquelas discretas e plenas de sentidos, está pincelada em certas cenas, onde fotografias estão pregadas nas paredes, em espelhos. Elas dão a dimensão das buscas da memória de Jean-Doo, que volta a seu passado. Significativamente, suas lembranças trazem vários desses momentos, em que ao fundo ou em segundo plano nas cenas estão elas, dezenas de fotografias de sua vida. Elas aparecem por serem um dos meios pelos quais ele busca sua humanidade. E aprende a conviver com sua solidão, tranformando-se e a tranformando, nesse sair do casulo e bater suas asas, mais reais porque imaginárias.
Pois é, faz muito sentido isso. Me contempla essa forma de perceber a solidão. Como Viviane, tenho medo de perder meu espaço de ser só, que me provoca tantas inquietações produtivas. Que me enche dos compromissos de ser livre. Também, sinto carências e ausências em momentos que têm dois lugares... Mas, mais fundo, sinto que ser só é um caminho. E bonito, se encontramos como sair do nosso escafandro, nos permitindo borboleta. Porque, em um momento ou outro, 'danço eu, dança você, na dança da solidão'.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A espera: urubus, Klimt e o Diabo.

Outra pérola encontrada no Sebinho, dessas que não dá prá deixar passar: Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga. Cronista que conheci pela paixão de um grande amigo e parceiro de trabalho durante bons anos dessa existência (agradecimentos não existem o bastante para esse amigo, pelo Rubem também...).

Há uma leveza nas suas redes narrativas, um tal enlevo que nem mesmo o cinismo certeiro e elegantemente fatal de certas reflexões retira. Ficam até mais fluídas, caso seja possível. E aí, entre a leitura de uma crônica e outra, me deparei com a mais afinada definição dos sentimentos que envolvem o ser que espera. Para Braga, esse ser reveste-se de feminino, talvez pelas próprias construções culturais, algumas dessas pautadas no biológico (quase incompreensível até para nós mesmas, quiça para o outro, masculino, no caso) que em nós, mulheres, naturaliza certas 'esperas': do príncipe, do filho, do amante (lembre de Teresa, que só foi embora com o 3º, depois de uma longa 'espera' por aquele que não lhe perguntou nada. Só chegou. E ficou.). Encontro consolo em Barthes (é, ele continua firme e forte nas minhas reflexões...), que amplia o gênero do torturado, pois esse é o ser amoroso: eu, ele, ela, nós...Nos Fragmentos, o verbete "Espera" segue caminhos tão tortuosos quanto seu próprio roteiro de sensações. Vejamos uns trechos bárbaros de intensidade (atire a primeira pedra quem não sentir um comichão familiar com o que vem a seguir...):

"A angústia da espera não é continuamente violenta; tem seus momentos mornos; espero, e todo o entorno de minha espera é marcado de irrealidade; neste café, olho os outros que entram, que papeiam, que brincam, que riem tranquilamente: eles, eles não esperam"

"O ser que estou esperando não é real . Tal o seio da mãe para o bebê, 'eu o crio e recrio sem cessar a partir de minha capacidade de amar, a partir da necessidade que tenho dele': o outro vem para o lugar em que o estou esperando, para o lugar em que já o criei. E se ele não vem, eu o alucino: a espera é um delírio."

"'Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero.' O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar aquele que não espera; tento me ocupar com outra coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso, pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal do amante nada mais é que: sou aquele que espera."


Ai, a espera...a crueldade do relógio, que passa de um minuto a outro mais lento a cada vez. Os combinados que vamos fazendo com a gente mesmo, aumentando a cada minuto a tolerância com o atraso do outro. Com a ligação que não vem. Com um sinal que seja, que não vem. E quando vem, temporariamente esquecemos dessa dor a conta gotas. Até que nova chance de esperar aparece. E você, ser que espera, o que faz? Espera. Algumas esperas valem à pena. E umas se tornam até mesmo signos divertidos entre eu e esse outro, ao longo da nossa história.

Mas, e aquelas esperas sem esperança? Como apetites que róem as paredes do estômago. Fazem um rombo de incompreensão e dessentidos no lugar em que deveria estar apenas o peito. Ali, funcionando com seus órgãos. Sem doer metafisicamente. Por isso, Braga, te agradeço. Porque por suas palavras me desculpo. Me dispo da culpa por sentir ódio, em certos momentos da espera. Por elaborar, na realidade imaginária da minha dor, pequenos gestos de vingança, enquanto a ausência se torna cada vez mais presente na espera. Por fazer promessas definitivas. E muitas vezes cumprí-las. Por verem diminuídas as crenças no outro, generalizando as decepções. Por suas palavras vejo que não nos transformamos em monstros quando esperamos. A espera é o monstro que nos transforma. Por isso, já sugere Braga:

"Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando o homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas, insistir, tocar outra vez, xingar, bater com o fone. Devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer essa mulher de esperança de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, 'estamos seguros de que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora...' (...)

Alívio...Sim, estamos desculpadas (e desculpados, meninos. Aqui o feminino é o sujeito universal do sentimento). Braga nos redime da nossa humanidade de quem espera:

"A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança.

(...) Porque a mulher que está esperando o homem recebe a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele."

E nos bastaria a sabedoria para perceber a espera que trás consigo não apenas seus espasmos e pequenos infartos. Mas que traga aquele que vale à pena esperar. Esse, chega. Na promessa retratada por Klimt, cuja Esperança II embeleza esse post.

Quanto aos outros...ah, Quintana, fecho contigo: tantas vezes a esperança não passa de um urubu vestido de verde...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre delicadezas cotidianas...ou que deveriam ser.

Delicadezas...amo essa palavra. Seus sentidos e desdobramentos. A conheci desde menina, mas a senti na sua amplitude de significações já na balzaquice, e a poesia foi o pó de pirlimpimpim (ou o suquinho Gammy, prá quem lembra dos Ursinhos Carinhosos, prá metáfora ganhar mais força de tradição...rs) que me fez voar sobre as experiências que vivi, me oferecendo lentes de sensibilidade e graus de delicadeza para relacioná-las, me perceber nas redes da minha história, das histórias enredadas à minha, meus limites e fronteiras de sentimentos... E ela entrou, a delicadeza, no meu olhar. Os dias ficam mais lindos, mas de muitas formas, nos cansa mais o sentir, porque torna-se intensamente doloroso por vezes. A leitura de um poema. Escutar uma risada. Ver um por do sol intensificar o azul do céu nesses dias lindos de Brasília em um janeiro atípico. As referências poéticas, ao traduzirem essas belezas raras, e cotidianas, tornam as sensações tão maiores...e, como a vida é isso e tudo mais, também intensificam nosso sentir as ausências de delicadezas nos dias, nas atitudes das pessoas, conhecidas ou não. No cuidado com o outro. Na disposição de uma flor. Num trânsito esquizofrênico e neurótico. Numa fila de festa. Numa ligação prometida e não dada. Numa mensagem não respondida. Numa verdade não falada. Um gesto retido na racionalização do depois. Na naturalização de amizades de discursos, onde ser 'gente boa' não significa mais ter zelo pelo outro. Não, isso é para os antigos. Significa ser uma boa companhia. Só quando se está junto. E pronto. E são tantas as situações que poderiam ser aqui trazidas prá ilustrar esse fenômeno entristecedor: o sumiço das delicadezas cotidianas. E para homenagear o tema, o mais delicado dos poetas. Ele, que traduz a delicadeza no cotidiano, na sua necessária fluidez pelas brechas dos dias.

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo.
Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos, Vinícius de Moraes

(a foto, um presente de viagem, das delicadas, em todos os seus momentos)

sábado, 31 de janeiro de 2009

Amor, sob algumas visões. Amor e suas sem-razões.

Há tempos, duas leituras, quase feitas em paralelo, deixaram em mim sensações prá lá de inquietantes: Fragmentos de um discurso amoroso (Roland Barthes) e Livro do Desassossego (Bernardo Soares/Fernando Pessoa). Por um fio tanto narrativo quanto emocional, ambas as obras tratam de inquietações de um ser incógnito e incogniscível. Barthes deixa cair suas análises finas, elegantes, de uma erudição poética, sobre o ser amoroso. Esse ser que nos habita a todos. Que ao ser despertado pela promessa de amor, já sai abanando o rabinho e passando por todas essas idiossincrasias (amei o potencial dessa palavra...mesmo feia ela cabe em tanto lugar...) do processo amoroso. Um processo não no sentido de algo cronológica e sentimentalmente realizável, mas como experiência que, por sua abrangência de sensações, paradoxos, conflitos internos, desrazões, fornece alguns elementos de análise panorâmica, ainda que inviável sem sensibilidade e acuidade poética, o que encontramos de sobra em Fragmentos. Esse ser amoroso, cujas sensações independem até do ser amado (prá saber mais é melhor ler o dito. Aqui, apresento o meu Barthes. Pode ser que o seu lhe traga outras reflexões...), me fez lembrar do guarda-livros, Bernardo Soares, o único heterônimo de Pessoa a escrever em prosa. a 'biografia sem fatos'. Não, Bernardo Soares está longe de amar a alguém como o ser amoroso do Barthes. O que lhes aproxima é a inquietude de cada detalhe do cotidiano, porque por trás do homem que trabalha, exerce suas funções diárias e necessárias, pode se encontrar um vulcão de sensibilidades; um sentir tão demasiado que aflige a alma o menor dos gestos. Uma sensação assim descrita por Soares: "a vida é como se me batessem com ela". O ser amoroso é isso. Está em constante desassossego. Não é ele. É uma legião. Ele é muitos. Aí vem outro poema, da Viviane, completar meu pensamento: "O amor tem fome, muita fome. Meu corpo são bocas abertas" (Fome, fragmento, no livro Toda Palavra). Todas essas bocas querem se alimentar. Bernardo Soares e o ser amoroso estão famintos. Mas, propriamente, de que? De sentidos, faço minha leitura. E fico mais inquieta. Meio aflita até. O Livro do desassossego cumpriu sua missão-título: me deixou num terremoto interno tão intenso que até mesmo a hora da leitura teve que ser monitorada (de noite, sozinha, um pouco triste? Proibida a leitura. Assim se passaram meses antes de terminá-lo...mas foi melhor mesmo assim, pois de forma outra eu ficaria doida de vez....). Barthes, nem me fale. O li em um momento em que todas as situações ali tão sensivelmente desveladas eram sentidas, às vezes de forma não tão poética assim. Imaginem o turbilhão... Enfim, duas leituras que ficaram pairando em meus devaneios sentimentais e poéticos por meses, como tradutores de certo aperto.

E agora, assim por um desses acasos que fazem todo o sentido, E por falar em amor, da Marina Colasanti (puxa, fui ingrata com ela por tempos: sempre a considerava a 'mulher do Affonso Romano de Sant'anna.' E ela é. E muito, muito mais...leiam a figura. E o Affonso, claro.) caiu em minhas mãos. Nos olhos, prá ser mais exata, porque tava ali, na estante do Sebinho, com uma plaquinha com preço inacreditável (acho que seis reais). Apostei no livro e o trouxe, confesso que com um certo receio de ser um daqueles meio auto ajuda de casal ou, pior, tipo Marie Clare (e seu discurso para a 'mulher inteligente', destinado a nenhuma mulher do universo, de tão inviável que passa a ser a mulher contemporânea: linda, sucesso profissional, uma doida na cama, uma lady na house, super mãe, chef frances, etc...). O fato é que Marina me extasiou, já nas primeiras páginas. Tanta sensibilidade, justeza no olhar, no sentir e no expressar. Delicadeza com as misérias e mesquinharias do 'ser amoroso', que Colasanti humaniza, dá nome e gênero, marcando as diferenças tão fortes e, paradoxalmente prá lá de subestimadas, nas formas e conteúdos sentimentais que nos afligem a todos. E a todas. E não uniformemente. Ela deu a liga que faltava aqui nos neurônios já um pouco desestabilizados e com fileiras incompletas e Barthes e Bernardo Soares foram trazidos à tona, nas falas que me inquietavam, nas perguntas que eu tinha certeza serem fulcrais prá mim: afinal, a quem amamos quando amamos? Somos nós atraídos por um outro que melhor nos reflete em seu olhar? Ou me encanto pelo outro por ausências em mim que nele reconheço e desejo completar? Sei que nem Platão consegue responder a essas questões, mesmo falando bonito até no seu Banquete. Ou Camões. Ou Quintana. Ou Florbela Spanca. E todos esses, sem responderem, ou por tentarem, de alguma forma, jogam mais luz e mais sombras sobre as minhas questões. Mas Marina conseguiu me atingir de uma forma mais pragmática, sem entrar em esquemas pré-elaborados. Não...ela o faz com muita sensibilidade e fineza. Parte de situações cotidianas, estudiosos consagrados, poetas, matérias de jornais e revistas, para aprofundar análises, provocar reflexões. E quando toca no assunto "o que amo quando amo", um de seus tópicos é sobre o que realmente buscamos no outro, e quais enquadramentos podemos dar a essas buscas. Diz ela que "o sonho do amor contém todos os outros". E olha o que encontro tão lindamente em Bernardo Soares:

"Nunca amamos alguém. Amamos, tão-somente, a idéia que fazemos de algúem. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.

(...) As relações entre uma alma e outra, através de coisas tão incertas e divergentes como as palavras comuns e os gestos que se empreendem, são matéria de estranha complexidade. No próprio ato em que nos conhecemos, nos desconhecemos. Dizem os dois "amo-te" ou pensam-no e sentem-no por troca, e cada um quer dizer uma idéia diferente, uma vida diferente, até, porventura, uma cor ou um aroma diferente, na soma abstrata de impressões que constitui a atividade da alma"


Aí vem Barthes. E com ele a lembrança de outro tempo, longe, no qual li o princípio do amor de Teresa D'Ávila (santa que amo e que escolheu o casamento com Cristo e não com um dos seus vários pretendentes porque 'amava amar o amor', e acreditava ser mais gratificante o amor divino que o profano. Na verdade, ela sabia que no convento teria mais liberdade que casada. Ela mesma sinaliza isso...acho que vem daí minha admiração doida por ela...outra leitura recomendada). Voltando ao Barthes (ai, essas disgressões poéticas....), encontro a descrição do verbete 'anulação' (forma genial como está disposto seu livro):

"Onda de linguagem no curso da qual o sujeito acaba por anular o objeto amado sob o volume do próprio amor: por uma perversão propriamente amorosa, é o amor que o sujeito ama, não o objeto"

Pronto, pirei! Isso porque, além dessas reflexões que os três adensaram em mim, ouvi, dia desses, em uma situação bem específica e que nem cabe relatar aqui, sobre um amor, desses que se constróem continuamente em bases flexíveis. O que ouvi foi que esse amor era 'roda da fortuna' (carta 10 do tarot, que simboliza mudança para melhor, coisas ótimas, etc, de uma forma bem porcamente resumida) porque tanto ele quanto ela se transformavam em pessoas melhores por se verem refletidos assim nos olhos um do outro. Despertavam, em cada um, o que tinham de potencialmente mais belo (lindo isso...).

Então, tá tudo certo!!!! Simples. Descobri que aquelas questões que tanto me inquietaram são as minhas perguntas essenciais (o que amo quando amo o outro? A quem amo?). Aquelas que vão jogando as pedrinhas para que eu não me perca no meio desses tantos desvios e atalhos...(Quintana me poemou isso, nas suas curtas 'INDAGAÇÕES': "A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas"...). E as minhas perguntas essenciais não revelam nenhum traço de egoísmo ou egocentrismo, como pode parecer à primeira vista, mas iluminam meus caminhos na estrada prá ser cada vez mais gente. Mais essa pessoa que idealizo ser. Mais quem me vejo na moldura do olhar do amado. Eu pinto meu quadro a partir dessas perguntas. Assim, o refletirei igualmente, meu semelhante, gente, de bem. De amor. (se não fizer bem, não é amor. Aí é assunto prá outra prosa...) Num espelho onde, em reflexos furta-cor, bailam Marina, Barthes, Pessoa, que me presentearam, fazendo ter mais sentimento e menos sentido essa, a palavra que, "De todas as palavras que trago gravadas na pele, (...) é a que me assalta de madrugada" (Viviane...tinha que ser...).

É Manoel. Tens toda a razão. Entender é parede. Sentir é árvore. E eis que me basta isso. Porque já dizia Ricardo Reis: pensar é estar doente dos olhos.


(como outra leitura, vai um pôr do sol lindo, da minha varanda)

Pacto com o tempo...


Ao completar a meiota da balzaquice, também chamado de 35 anos, aprendi uma poesia que revela um acordo seriamente divertido, meu pacto com o tempo. A recitei para alguns amigos (como sempre reitero: pobres amigos e seus ouvidos muito alugados....rsrs) e me emociono muito sempre que o recito. É meu. Me explica. E Elisa confirma: quem recita, se torna dono. Cada interpretação é autoral. Aí vai o 'meu poema' dos 35 anos...E uma imagem linda, da Frida Kahlo (Raízes).


quem tem olhos pra ver o tempo soprando sulcos na pele soprando sulcos na pele soprando sulcos?

o tempo andou riscando meu rosto
com uma navalha fina

sem raiva nem rancor
o tempo riscou meu rosto com calma
(eu parei de lutar contra o tempo
ando exercendo instantes
acho que ganhei presença)

acho que a vida anda passando a mão em mim.
a vida anda passando a mão em mim.
acho que a vida anda passando.
a vida anda passando.
acho que a vida anda.
a vida anda em mim.
acho que há vida em mim.
a vida em mim anda passando.
acho que a vida anda passando a mão em mim

e por falar em sexo quem anda me comendo
é o tempo
na verdade faz tempo mas eu escondia
porque ele me pegava à força e por trás
um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo
se você tem que me comer
que seja com o meu consentimento
e me olhando nos olhos

acho que ganhei o tempo
de lá pra cá ele tem sido bom comigo
dizem que ando até remoçando.


Viviane Mosé


Lição de cacto


Pois é, entre a primeira postagem, cheia de entusiasmo e otimismo quanto à "forma mais ou menos sistemática" de escrever as 'coisinhas', muitos dias e noites - alguns memoráveis...outros também, mas com pretensões a esquecíveis... - se passaram. E por vezes senti muita vontade de escrever. Aconteceram muitas coisas bacanas - encontro com Elisa Lucinda, descobertas musicais, idas ao cinema - que dariam ótima prosa aqui no blog (prá mim, pelo menos...rsrsrs). Mas vou me deter em um acontecimento que se não foi o mais importante (não consegui dar peso a alguns ocorridos desse tempo; quase tudo foi tão significativo...), foi um dos mais marcantes e que me fez refletir muito, chorar um pouco, relacionar à vida: a floração do meu cacto. O ganhei do amigo-luz - ilumina meus dias com sua sabedoria divertida, sua molecagem nível máximo, sua forma de dizer tudo e não magoar nada... - que aqui o deixou por não vê-lo em melhor cenário, a varanda linda e coberta de céu. Aí comecei a ver o movimento: um pistilinho pequeno, saindo do meio do cacto. Uhú! Já sabia eu, a espertinha, que dali ia sair uma flor linda! E sabia disso porque já tinha visto essa preparação, ainda que an passant e talvez com menos interesse, quando seu dono ainda não era euzinha. Bom, prá resumir a trajetória que acompanhei muito de pertinho dessa vez, e cheia de expectativa, a cada dia crescia um pouco mais. E o corpo do cacto parecia estar cansado, direcionando todas as suas forças para a preparação dela, a flor, que vinha assim, assim, protegida por pétalas verdes, como dedos. E isso levou vários dias (tenho que confessar que sou péssima com anotações que exigem uma certa constância, como diários, agendas. Por isso não sei precisar quantos dias, horas, luas, etc...perdoem-me os virginianos) até que, de repente, em um domingo, sem avisar nada, ela abriu....linda!!!!!!!! Branca. Pétalas pontudas, forte. Espetáculo que quase perdi! E assim, lindamente poderosa, ela ficou por algumas horas. É isso mesmo. Durou pouquíssimas horas todo aquele esforço dispendido pelo cacto que, pobrecito, ainda está se recuperando do parto. Claro que fiquei chocada! Como assim? Me deixa na maior expectativa durante dias e se vai desse jeito???? Não me deu tempo de olhá-la ao sol da manhãzinha ao menos, a danada! E aí bateu...caraca, que lição da porra recebi disso. Assim, simples demais. O esforço do cacto não está atrelado à duração da sua flor. Ou à duração de sua admiração. Mas à sua efemeridade. Sua inutileza (ai, Manoel de Barros, dai-me mais desses neologismos que vislumbram, na linguagem, os encantamentos inintelingíveis dos cruzamentos conceituais-poéticos de suas imagens...) é sua força. Por que temos sempre um porquê? Acho que foi mais ou menos isso que o cacto me ensinou, ainda que cientificamente deva ter uma explicação super coerente, prática, mas nada poética. Então, fico com minha versão do causo mesmo...Aí em cima, o início da preparação para a flor. O durante e o final não foram registrados....pena, eu sei. Mas ano que vem ele flore de novo...aí eu mostro...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2009

Passagem de ano: bom, mas ruim (como diria Tom, o Jobim...)


Pois é, expectativa a mil, ainda mais depois de saber sobre esse 2009, cheio de possibilidades, segundo a astrologia chinesa, a ocidental, os orishás, o tarot - ano de oxóssi, de boi, regido pela carta 11, que significa força, etc, etc,... - e como boa escorpiana com ascendente em áries (adoro isso...dá um medo em algumas pessoas quando falo desses dois signos assim, convivendo no meu mapa...adoro a expressão de "putz, foda!"...rsrs....me sinto...rsrsrs).


Mas, continuando o papo, tava eu já cheia de ansiedade para a grande passagem, já combinando com a turma - diga-se de passagem, a melhor turma!!!! - a ida prá Chapada, no sítio de um outro grande amigo, no Piquizeiro. Sempre vamos prá lá e sempre voltamos com tantas histórias, felizes, felizes...


Fui só, por essa estrada....péssima!!!!! Deusas, como pode uma estrada ficar daquele jeito, com tantos buracos que vira um game (se errar, lascou...) meio louco nos desvios que temos que fazer. Mas, tava eu no melhor dos ânimos, indo prá Chapada. Piquizeiro, tava lindo! Amigos esperando com todo aquele aconchego. Aí vem a parte que não tava no script: cara, o que tá acontecendo com São Jorge???? Cadê aquele clima meio 'tô em outra', universo paralelo, melhor, mais energético? Sem falar na parte mais prática da percepção das ausências: músicas boas rolando, pessoas em um nível de energia semelhante, buscando a onda da natureza, sem descuidar do forró no Cavaleiros, a cerva cheia de paquera no Pelé, o roquezinho no Bodinho, o som show de bola do Bafafá???? Nos dias que fiquei por lá o que vi - e ouvi - foi: sertaneja, funk e eletrônica num carro daqueles cheios de neon e com um aparelho de som absurdamente quase do tamanho do próprio suporte, no caso, o carro; muita sujeira na vila; desânimo no Bodinho (showzinho meia bomba, vazio); Pelé cheio de heterozinho meio raivoso (dessa espécime muito encontrada em boate hetero, que acha que mulheres sós estão ali, só esperando sua boa e tosca vontade...urgh!!!!)...bom, aí veio o ano novo. A estranheza atingiu o limite: caraca, não foi aqui que passei a passagem 06/07!!!! Agora, a Lua de São Jorge tava vazia, a banda não conseguia segurar o som. O Cavaleiros e o Bafafá não abriram. Bodinho tava com um forró super mega ultra sem ninguém. Onda estranha... E o ápice foi em Raizama. Fui prá lá, no meu carro, seguindo um casal amigo também hospedado no Piquizeiro. Lá, estacionamento quase na porta da festa (estranhamento total, porque dois anos antes a gente teve que andar muito até o agito, porque estacionamos quase na estrada de terra da entrada), pouca gente, bar totalmente tranquilo. Desânimo. E pior, os heterozinhos raivosos foram em bando e deixaram as pessoas interessantes trancafiadas em algum lugar ermo da Chapada. Sinais já haviam sido dados no festival de cultura popular, em julho. A vibe tava estranha desse jeito, o festival mal articulado, as apresentações pouco atrativas. Mas eu não tinha como certo que isso era um processo de mudança da vila. Resultado: fiquei triste com isso...e decidi, junto com os amigos, que a Chapada é o Piquizeiro. Lá, as risadas são todas. A amizade reina. Lá é a minha Pasárgada. Mas, volto a perguntar: o que está acontecendo com São Jorge????? (Na foto, algo que não mudou: a beleza e a imponência do Morro da Baleia. Graças!!!!)

E no início era o verbo...

Um blog - por sinal de muita sensibilidade - de uma grande amiga foi o que podemos chamar de gota d'água para que eu pusesse em prática a minha idéia de publicar coisinhas. Sim, coisinhas, tantas, dessas que às vezes a gente pensa, acha muito bacana, quer compartilhar com alguém, fala prá amigos - pobres ouvidos...rsrs... - e ainda fica com vontade de registrar. Pois é, são dessas coisinhas de que falo e que tentarei postar por aqui de uma forma mais ou menos sistemática. Aqui vou escrever minhas percepções sobre a vida, no geral. Nada assim, meio intelectual-meio-de-esquerda (agradeço a expressão a Antônio Prata...leiam, é ótimo esse cara...), mas realmente coisinhas, bem no diminutivo, não por serem pouco importantes - até podem ser... - mas porque são sensações proporcionadas pelo cotidiano...encontros, leituras, viagens, conversas, desabafos....
E o nome do blog é uma brincadeira de um amigo, especialíssimo, que cunhou de 'nuizinhas' umas florzinhas lindas do cerrado, que, claro, não sabíamos o nome. E brincou com meu Nui...enfim, não dá prá descrever aqui como isso fez a gente rir um bocado em Pirenópolis. Pena eu não ter esse dom de construir belas imagens com palavras....
Então, vá lá, comecei!