terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A espera: urubus, Klimt e o Diabo.

Outra pérola encontrada no Sebinho, dessas que não dá prá deixar passar: Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga. Cronista que conheci pela paixão de um grande amigo e parceiro de trabalho durante bons anos dessa existência (agradecimentos não existem o bastante para esse amigo, pelo Rubem também...).

Há uma leveza nas suas redes narrativas, um tal enlevo que nem mesmo o cinismo certeiro e elegantemente fatal de certas reflexões retira. Ficam até mais fluídas, caso seja possível. E aí, entre a leitura de uma crônica e outra, me deparei com a mais afinada definição dos sentimentos que envolvem o ser que espera. Para Braga, esse ser reveste-se de feminino, talvez pelas próprias construções culturais, algumas dessas pautadas no biológico (quase incompreensível até para nós mesmas, quiça para o outro, masculino, no caso) que em nós, mulheres, naturaliza certas 'esperas': do príncipe, do filho, do amante (lembre de Teresa, que só foi embora com o 3º, depois de uma longa 'espera' por aquele que não lhe perguntou nada. Só chegou. E ficou.). Encontro consolo em Barthes (é, ele continua firme e forte nas minhas reflexões...), que amplia o gênero do torturado, pois esse é o ser amoroso: eu, ele, ela, nós...Nos Fragmentos, o verbete "Espera" segue caminhos tão tortuosos quanto seu próprio roteiro de sensações. Vejamos uns trechos bárbaros de intensidade (atire a primeira pedra quem não sentir um comichão familiar com o que vem a seguir...):

"A angústia da espera não é continuamente violenta; tem seus momentos mornos; espero, e todo o entorno de minha espera é marcado de irrealidade; neste café, olho os outros que entram, que papeiam, que brincam, que riem tranquilamente: eles, eles não esperam"

"O ser que estou esperando não é real . Tal o seio da mãe para o bebê, 'eu o crio e recrio sem cessar a partir de minha capacidade de amar, a partir da necessidade que tenho dele': o outro vem para o lugar em que o estou esperando, para o lugar em que já o criei. E se ele não vem, eu o alucino: a espera é um delírio."

"'Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero.' O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar aquele que não espera; tento me ocupar com outra coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso, pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal do amante nada mais é que: sou aquele que espera."


Ai, a espera...a crueldade do relógio, que passa de um minuto a outro mais lento a cada vez. Os combinados que vamos fazendo com a gente mesmo, aumentando a cada minuto a tolerância com o atraso do outro. Com a ligação que não vem. Com um sinal que seja, que não vem. E quando vem, temporariamente esquecemos dessa dor a conta gotas. Até que nova chance de esperar aparece. E você, ser que espera, o que faz? Espera. Algumas esperas valem à pena. E umas se tornam até mesmo signos divertidos entre eu e esse outro, ao longo da nossa história.

Mas, e aquelas esperas sem esperança? Como apetites que róem as paredes do estômago. Fazem um rombo de incompreensão e dessentidos no lugar em que deveria estar apenas o peito. Ali, funcionando com seus órgãos. Sem doer metafisicamente. Por isso, Braga, te agradeço. Porque por suas palavras me desculpo. Me dispo da culpa por sentir ódio, em certos momentos da espera. Por elaborar, na realidade imaginária da minha dor, pequenos gestos de vingança, enquanto a ausência se torna cada vez mais presente na espera. Por fazer promessas definitivas. E muitas vezes cumprí-las. Por verem diminuídas as crenças no outro, generalizando as decepções. Por suas palavras vejo que não nos transformamos em monstros quando esperamos. A espera é o monstro que nos transforma. Por isso, já sugere Braga:

"Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando o homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas, insistir, tocar outra vez, xingar, bater com o fone. Devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer essa mulher de esperança de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, 'estamos seguros de que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora...' (...)

Alívio...Sim, estamos desculpadas (e desculpados, meninos. Aqui o feminino é o sujeito universal do sentimento). Braga nos redime da nossa humanidade de quem espera:

"A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança.

(...) Porque a mulher que está esperando o homem recebe a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele."

E nos bastaria a sabedoria para perceber a espera que trás consigo não apenas seus espasmos e pequenos infartos. Mas que traga aquele que vale à pena esperar. Esse, chega. Na promessa retratada por Klimt, cuja Esperança II embeleza esse post.

Quanto aos outros...ah, Quintana, fecho contigo: tantas vezes a esperança não passa de um urubu vestido de verde...

Um comentário:

Schaita disse...

Ai, amiga linda e necessária... vc disse tudo hoje! A espera... e o atraso do outro... é roer a carne do dedo! Mas vamo-que-vamo... quem mandou ser um ser que ama?