
Palavra danada, que anda falando muito aos meus ouvidos nos últimos tempos: SOLIDÃO. A danadinha pulula entre meus pensamentos e sentimentos. O estar só me dá espaço e tempo para pensar nisso, de ser só. Parece óbvio e bobo - talvez até seja mesmo -, mas o tema gera boas reflexões sobre nós mesmos, o amor, o outro, a vida enfim, muitas das quais não fazem sentido se estamos junto (aí, são outras as palavras....ou as mesmas, pensadas do lado de lá). Além do quê, provocou tanta gente boa a produzir belas obras em seu nome, e sob olhares tão diversos...e, talvez de forma inconsciente, esteja eu atuando sobre a energia dos autores que me encontram, pois que ando esbarrando muito com ela, essa 'lava que cobre tudo' (É, Paulinho é um dos grandes que referenciam e traduzem seus sentidos na minha vida...), a solidão. Em poesia, em prosa, em conversa. Em rima, frases curtas. Em histórias cotidianas, onde essa 'palavra cavada no coração' se revela em algum momento; ou em vários. E a danada troca de roupa, ou usa vários acessórios, dependendo da situação: pode vir ornada de dor sem esperança (só lembrar de Luz Negra, do Cazuza, já dá vontade de morrer de melancolia..."Sempre só, eu vivo procurando, procurando alguém que sofra como eu, também. Mas não consigo achar ninguém"...putz, mata.); louca de rancores e ódio (li dia desses frase estarrecedora, porque tão humana: 'o veneno que tomo desejando que o outro morra'. Não sei de quem é...); languidamente acostada na tristeza, dama tão doce nesse trechinho de Renúncia, do Manuel Bandeira:
Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira.
Ou tão suave, mentora, diáfana e leve, porque despida do peso da esperança, como em Elisa:
Hoje acordei triste
muito triste
mas com a pele boa,
muito boas mãos
as mãos macias
achei até que deveria
ser o fato de eu ter espremido
limas-da-pérsia logo pela manhã.
Suave
a voz doce
pernas leves sobre a casa
camisola ponta de asa
tocando de leve os calcanhares
estava triste
e tudo muito sereno e esbelto em mim.
Hoje não concluo,
escolho dúvidas:
será que às vezes a tristeza,
como um esmeril paciente,
burila?
Afina a gente?
(O esmeril, feito prá Viviane Mosé)
É. Louco esse sentimento, que independente do tipo de roupa que usa prá entrar na nossa cena, trás consigo uma passagem, só de ida, prá uma praia deserta, consigo mesmo (num certo sentido, é sempre praia deserta). E assim, é melhor aproveitar mesmo, se divertir, porque pode ser uma estada, uma parada. Ou, uma opção que podemos abraçar, ou sermos por ela abraçados. De uma forma ou de outra, é hora de ver se somos boas companhias, na viagem ao nosso próprio lado. Parece até simplizinho, colocado dessa forma, mas até pode ser. E digo isso porque acho que um dos problemas da nossa gente, por esses tempos de crises de toda sorte e medida, é não acreditar no próprio potencial prá lidar com certas situações. A solidão é uma delas. Somos massificados pela propaganda diária em todos os veículos com casais lindos, famílias, tudo perfeito e coisa e tal, amores de novela cuja paixão dura a vida. E como única opção possível de felicidade ("quem pode querer ser feliz, se não for por um bem de amor..."). No dia-a-dia, no mano-a-mano, é que vemos que a fórmula eu + outro = felicidade eterna não é a regra. Pode ser de muitos casais, mas vejo mais desencontros nessa vida de meu Deus do que gostaria. Aí vem realmente o ponto norteador desse tanto de conversa: então, a solidão realmente se traduz por ausências doídas? Sempre é sinal da falta do outro? E a cada vez que encontro, mais aleatória que premeditadamente, referências à solidão, vou ruminando as idéias e elaborando minhas teorias do sentir, como apresento nessas linhas.
Viviane Mosé e Elisa Lucinda, cujas palavras são encantos na minha vida, me trazem outros tantos fios de meada que recupero nas vivências, nas situações nas quais meu olhar se torna cada vez mais poético. E, como espero, mais amplo. E ambas, ao tratarem da solidão, revelam formas diferentes de lidar com a danada. Com o mesmo conteúdo: a poesia.
Confesso que a perspectiva da Elisa me enche de aconchego, porque em suas palavraspoemas há uma crença forte no outro. No amor. No estar junto. Solidão não. Ela quer o outro e tudo que vem junto e confessa suas 'fraquezas' perante a idéia da solidão:
Passa por mim o velho barco
me convidando
a um mar que não me interessa.
Passa por mim com pressa
esse velho mar
de não ter porto
nem amor
nem braços aonde chegar.
Passa por mim esse velho conhecido mar.
Olho-o com olhos de não quero ir.
Passa por mim a velha estrada de água
onde eu nunca soube muito bem nadar.
Quero a terra firme
e nela andar rente
e de mãos dadas prá todo o sempre.
Nunca mais ímpar
nunca mais sem me dar
não quero mais minha mão sozinha
nunca mais sem par.
(Visita da Solidão, em A fúria da beleza)
Em Viviane encontro outras possibilidades na solidão: eu, silêncio, espaço, tempo. Seu paradoxo: como viver na solidão? Como viver sem solidão?
Se existem tantas formas de sentir a solidão, então, como dizer que é ruim estar só, ser só? A solidão pode sim independer do outro. Porque é um daqueles sentimentos incompartilháveis. Daqueles que, gota a gota, tomamos em um copo só. Com nosso nome. Nesse ponto da questão, trago as sensibilidades de O escafandro e a borboleta, que caem como luvas. Ou melhor, borboletas... Nesse filme, que só assisti há pouco, encontro Jean-Doo, preso em si mesmo, refém no seu próprio corpo. Na solidão da quase incomunicabilidade da sua relação com o mundo, só rompido tenuamente pelo seu olhar, sai de seu torpor vitimista ao 'agarrar-se ao que havia de humano em si' (uma fala do filme, essencial...). Uma das várias delicadezas desse filme, daquelas discretas e plenas de sentidos, está pincelada em certas cenas, onde fotografias estão pregadas nas paredes, em espelhos. Elas dão a dimensão das buscas da memória de Jean-Doo, que volta a seu passado. Significativamente, suas lembranças trazem vários desses momentos, em que ao fundo ou em segundo plano nas cenas estão elas, dezenas de fotografias de sua vida. Elas aparecem por serem um dos meios pelos quais ele busca sua humanidade. E aprende a conviver com sua solidão, tranformando-se e a tranformando, nesse sair do casulo e bater suas asas, mais reais porque imaginárias.Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,
expulsar de mim essa nossa senhora ciumenta.
Madona sedenta de versos. Mas tive medo.
Medo de que a solidão ao sair
levasse a imensidão onde me deito.
Ausência de espelhos que dissolve a falta,
a fraqueza, a preguiça. E me faz vento,
pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.
Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,
onde tudo é grave e único.
E me mantive quieta e muda.
(trecho de Prosa Patética, no Toda Palavra)
Pois é, faz muito sentido isso. Me contempla essa forma de perceber a solidão. Como Viviane, tenho medo de perder meu espaço de ser só, que me provoca tantas inquietações produtivas. Que me enche dos compromissos de ser livre. Também, sinto carências e ausências em momentos que têm dois lugares... Mas, mais fundo, sinto que ser só é um caminho. E bonito, se encontramos como sair do nosso escafandro, nos permitindo borboleta. Porque, em um momento ou outro, 'danço eu, dança você, na dança da solidão'.
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