domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre delicadezas cotidianas...ou que deveriam ser.

Delicadezas...amo essa palavra. Seus sentidos e desdobramentos. A conheci desde menina, mas a senti na sua amplitude de significações já na balzaquice, e a poesia foi o pó de pirlimpimpim (ou o suquinho Gammy, prá quem lembra dos Ursinhos Carinhosos, prá metáfora ganhar mais força de tradição...rs) que me fez voar sobre as experiências que vivi, me oferecendo lentes de sensibilidade e graus de delicadeza para relacioná-las, me perceber nas redes da minha história, das histórias enredadas à minha, meus limites e fronteiras de sentimentos... E ela entrou, a delicadeza, no meu olhar. Os dias ficam mais lindos, mas de muitas formas, nos cansa mais o sentir, porque torna-se intensamente doloroso por vezes. A leitura de um poema. Escutar uma risada. Ver um por do sol intensificar o azul do céu nesses dias lindos de Brasília em um janeiro atípico. As referências poéticas, ao traduzirem essas belezas raras, e cotidianas, tornam as sensações tão maiores...e, como a vida é isso e tudo mais, também intensificam nosso sentir as ausências de delicadezas nos dias, nas atitudes das pessoas, conhecidas ou não. No cuidado com o outro. Na disposição de uma flor. Num trânsito esquizofrênico e neurótico. Numa fila de festa. Numa ligação prometida e não dada. Numa mensagem não respondida. Numa verdade não falada. Um gesto retido na racionalização do depois. Na naturalização de amizades de discursos, onde ser 'gente boa' não significa mais ter zelo pelo outro. Não, isso é para os antigos. Significa ser uma boa companhia. Só quando se está junto. E pronto. E são tantas as situações que poderiam ser aqui trazidas prá ilustrar esse fenômeno entristecedor: o sumiço das delicadezas cotidianas. E para homenagear o tema, o mais delicado dos poetas. Ele, que traduz a delicadeza no cotidiano, na sua necessária fluidez pelas brechas dos dias.

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo.
Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos, Vinícius de Moraes

(a foto, um presente de viagem, das delicadas, em todos os seus momentos)

Um comentário:

... disse...

Bom ler sobre o nosso substantivo feminino que anda tão escasso no mercado... Ver delicadezas em cada metro quadrado, deve ser essa uma das mais importantes funções dos poetas... Obrigada pela lembrança!

beijinhos