sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Álvaro de Campos...por Berhania.



Sexta-feira 13. Pós encontro com mulheresflorespoemas. Ainda em estado de langor poético.
Então, presente pré-findi: Pessoa, em Campos (vale à pena ouvir Bethania, no Dentro do Mar tem Rio. Escandaloso...).


Mandado de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu reles esnobe plebeu
E fora tu, imperialista das sucatas
Charlatão da sinceridade e tu, da juba socialista, e tu qualquer outro.
Ultimatum a todos eles e a todos que sejam como eles todos.
Monte de tijolos com pretensões a casa
Inútil luxo, megalomania triunfante
E tu Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral que nem te queria descobrir.
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
Que confundis tudo!
Vós anarquistas deveras sinceros
Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores para quererem deixar de trabalhar.
Sim, todos vos que representais o mundo, homens altos passai por baixo do meu desprezo
Passai, aristocratas de tanga de ouro,
Passai frouxos
Passai radicais do pouco!
Quem acredita neles?
Mandem tudo isso para casa, descascar batatas simbólicas
Fechem-me isso a chave e deitem a chave fora.
Sufoco de ter só isso a minha volta.
Deixem-me respirar!
Abram todas as janelas
Abram mais janelas do que todas as janelas que há no mundo.
Nenhuma idéia grande, nenhuma corrente política que soe a uma idéia grão!
E o mundo quer a inteligência nova
O mundo tem sede de que se crie
O que aí está a apodrecer a vida, quando muito, é estrume para o futuro.
O que aí está não pode durar porque não é nada.
Eu, da raça dos navegadores, afirmo que não pode durar!
Eu, da raça dos descobridores, desprezo o que seja menos que descobrir o mundo novo.
Proclamo isso bem alto, braços erguidos, fitando o Atlântico
e saudando abstratamente o infinito.
(Poesiaimagem de Klimt, com sua Árvore da Vida)

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Solidão. Uma Pasárgada ressignificada?




Palavra danada, que anda falando muito aos meus ouvidos nos últimos tempos: SOLIDÃO. A danadinha pulula entre meus pensamentos e sentimentos. O estar só me dá espaço e tempo para pensar nisso, de ser só. Parece óbvio e bobo - talvez até seja mesmo -, mas o tema gera boas reflexões sobre nós mesmos, o amor, o outro, a vida enfim, muitas das quais não fazem sentido se estamos junto (aí, são outras as palavras....ou as mesmas, pensadas do lado de lá). Além do quê, provocou tanta gente boa a produzir belas obras em seu nome, e sob olhares tão diversos...e, talvez de forma inconsciente, esteja eu atuando sobre a energia dos autores que me encontram, pois que ando esbarrando muito com ela, essa 'lava que cobre tudo' (É, Paulinho é um dos grandes que referenciam e traduzem seus sentidos na minha vida...), a solidão. Em poesia, em prosa, em conversa. Em rima, frases curtas. Em histórias cotidianas, onde essa 'palavra cavada no coração' se revela em algum momento; ou em vários. E a danada troca de roupa, ou usa vários acessórios, dependendo da situação: pode vir ornada de dor sem esperança (só lembrar de Luz Negra, do Cazuza, já dá vontade de morrer de melancolia..."Sempre só, eu vivo procurando, procurando alguém que sofra como eu, também. Mas não consigo achar ninguém"...putz, mata.); louca de rancores e ódio (li dia desses frase estarrecedora, porque tão humana: 'o veneno que tomo desejando que o outro morra'. Não sei de quem é...); languidamente acostada na tristeza, dama tão doce nesse trechinho de Renúncia, do Manuel Bandeira:

Encerra em ti tua tristeza inteira.

E pede humildemente a Deus que a faça

Tua doce e constante companheira.


Ou tão suave, mentora, diáfana e leve, porque despida do peso da esperança, como em Elisa:

Hoje acordei triste

muito triste

mas com a pele boa,

muito boas mãos

as mãos macias

achei até que deveria

ser o fato de eu ter espremido

limas-da-pérsia logo pela manhã.


Suave

a voz doce

pernas leves sobre a casa

camisola ponta de asa

tocando de leve os calcanhares

estava triste

e tudo muito sereno e esbelto em mim.


Hoje não concluo,

escolho dúvidas:

será que às vezes a tristeza,

como um esmeril paciente,

burila?

Afina a gente?


(O esmeril, feito prá Viviane Mosé)


É. Louco esse sentimento, que independente do tipo de roupa que usa prá entrar na nossa cena, trás consigo uma passagem, só de ida, prá uma praia deserta, consigo mesmo (num certo sentido, é sempre praia deserta). E assim, é melhor aproveitar mesmo, se divertir, porque pode ser uma estada, uma parada. Ou, uma opção que podemos abraçar, ou sermos por ela abraçados. De uma forma ou de outra, é hora de ver se somos boas companhias, na viagem ao nosso próprio lado. Parece até simplizinho, colocado dessa forma, mas até pode ser. E digo isso porque acho que um dos problemas da nossa gente, por esses tempos de crises de toda sorte e medida, é não acreditar no próprio potencial prá lidar com certas situações. A solidão é uma delas. Somos massificados pela propaganda diária em todos os veículos com casais lindos, famílias, tudo perfeito e coisa e tal, amores de novela cuja paixão dura a vida. E como única opção possível de felicidade ("quem pode querer ser feliz, se não for por um bem de amor..."). No dia-a-dia, no mano-a-mano, é que vemos que a fórmula eu + outro = felicidade eterna não é a regra. Pode ser de muitos casais, mas vejo mais desencontros nessa vida de meu Deus do que gostaria. Aí vem realmente o ponto norteador desse tanto de conversa: então, a solidão realmente se traduz por ausências doídas? Sempre é sinal da falta do outro? E a cada vez que encontro, mais aleatória que premeditadamente, referências à solidão, vou ruminando as idéias e elaborando minhas teorias do sentir, como apresento nessas linhas.

Viviane Mosé e Elisa Lucinda, cujas palavras são encantos na minha vida, me trazem outros tantos fios de meada que recupero nas vivências, nas situações nas quais meu olhar se torna cada vez mais poético. E, como espero, mais amplo. E ambas, ao tratarem da solidão, revelam formas diferentes de lidar com a danada. Com o mesmo conteúdo: a poesia.

Confesso que a perspectiva da Elisa me enche de aconchego, porque em suas palavraspoemas há uma crença forte no outro. No amor. No estar junto. Solidão não. Ela quer o outro e tudo que vem junto e confessa suas 'fraquezas' perante a idéia da solidão:

Passa por mim o velho barco

me convidando

a um mar que não me interessa.

Passa por mim com pressa

esse velho mar

de não ter porto

nem amor

nem braços aonde chegar.

Passa por mim esse velho conhecido mar.

Olho-o com olhos de não quero ir.

Passa por mim a velha estrada de água

onde eu nunca soube muito bem nadar.

Quero a terra firme

e nela andar rente

e de mãos dadas prá todo o sempre.

Nunca mais ímpar

nunca mais sem me dar

não quero mais minha mão sozinha

nunca mais sem par.


(Visita da Solidão, em A fúria da beleza)


Em Viviane encontro outras possibilidades na solidão: eu, silêncio, espaço, tempo. Seu paradoxo: como viver na solidão? Como viver sem solidão?

Hoje andei como louca, quis gritar com a solidão,

expulsar de mim essa nossa senhora ciumenta.

Madona sedenta de versos. Mas tive medo.

Medo de que a solidão ao sair

levasse a imensidão onde me deito.

Ausência de espelhos que dissolve a falta,

a fraqueza, a preguiça. E me faz vento,

pedra, desembocadura, abotoadura e silêncio.

Tive medo de perder o estado de verso e vácuo,

onde tudo é grave e único.

E me mantive quieta e muda.


(trecho de Prosa Patética, no Toda Palavra)

Se existem tantas formas de sentir a solidão, então, como dizer que é ruim estar só, ser só? A solidão pode sim independer do outro. Porque é um daqueles sentimentos incompartilháveis. Daqueles que, gota a gota, tomamos em um copo só. Com nosso nome. Nesse ponto da questão, trago as sensibilidades de O escafandro e a borboleta, que caem como luvas. Ou melhor, borboletas... Nesse filme, que só assisti há pouco, encontro Jean-Doo, preso em si mesmo, refém no seu próprio corpo. Na solidão da quase incomunicabilidade da sua relação com o mundo, só rompido tenuamente pelo seu olhar, sai de seu torpor vitimista ao 'agarrar-se ao que havia de humano em si' (uma fala do filme, essencial...). Uma das várias delicadezas desse filme, daquelas discretas e plenas de sentidos, está pincelada em certas cenas, onde fotografias estão pregadas nas paredes, em espelhos. Elas dão a dimensão das buscas da memória de Jean-Doo, que volta a seu passado. Significativamente, suas lembranças trazem vários desses momentos, em que ao fundo ou em segundo plano nas cenas estão elas, dezenas de fotografias de sua vida. Elas aparecem por serem um dos meios pelos quais ele busca sua humanidade. E aprende a conviver com sua solidão, tranformando-se e a tranformando, nesse sair do casulo e bater suas asas, mais reais porque imaginárias.
Pois é, faz muito sentido isso. Me contempla essa forma de perceber a solidão. Como Viviane, tenho medo de perder meu espaço de ser só, que me provoca tantas inquietações produtivas. Que me enche dos compromissos de ser livre. Também, sinto carências e ausências em momentos que têm dois lugares... Mas, mais fundo, sinto que ser só é um caminho. E bonito, se encontramos como sair do nosso escafandro, nos permitindo borboleta. Porque, em um momento ou outro, 'danço eu, dança você, na dança da solidão'.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

A espera: urubus, Klimt e o Diabo.

Outra pérola encontrada no Sebinho, dessas que não dá prá deixar passar: Ai de ti, Copacabana, de Rubem Braga. Cronista que conheci pela paixão de um grande amigo e parceiro de trabalho durante bons anos dessa existência (agradecimentos não existem o bastante para esse amigo, pelo Rubem também...).

Há uma leveza nas suas redes narrativas, um tal enlevo que nem mesmo o cinismo certeiro e elegantemente fatal de certas reflexões retira. Ficam até mais fluídas, caso seja possível. E aí, entre a leitura de uma crônica e outra, me deparei com a mais afinada definição dos sentimentos que envolvem o ser que espera. Para Braga, esse ser reveste-se de feminino, talvez pelas próprias construções culturais, algumas dessas pautadas no biológico (quase incompreensível até para nós mesmas, quiça para o outro, masculino, no caso) que em nós, mulheres, naturaliza certas 'esperas': do príncipe, do filho, do amante (lembre de Teresa, que só foi embora com o 3º, depois de uma longa 'espera' por aquele que não lhe perguntou nada. Só chegou. E ficou.). Encontro consolo em Barthes (é, ele continua firme e forte nas minhas reflexões...), que amplia o gênero do torturado, pois esse é o ser amoroso: eu, ele, ela, nós...Nos Fragmentos, o verbete "Espera" segue caminhos tão tortuosos quanto seu próprio roteiro de sensações. Vejamos uns trechos bárbaros de intensidade (atire a primeira pedra quem não sentir um comichão familiar com o que vem a seguir...):

"A angústia da espera não é continuamente violenta; tem seus momentos mornos; espero, e todo o entorno de minha espera é marcado de irrealidade; neste café, olho os outros que entram, que papeiam, que brincam, que riem tranquilamente: eles, eles não esperam"

"O ser que estou esperando não é real . Tal o seio da mãe para o bebê, 'eu o crio e recrio sem cessar a partir de minha capacidade de amar, a partir da necessidade que tenho dele': o outro vem para o lugar em que o estou esperando, para o lugar em que já o criei. E se ele não vem, eu o alucino: a espera é um delírio."

"'Estarei enamorado? - Claro que sim, já que espero.' O outro, este, nunca espera. Às vezes, quero bancar aquele que não espera; tento me ocupar com outra coisa, chegar atrasado; mas, nesse jogo, sempre perco; faça o que fizer, acabo sempre ocioso, pontual, adiantado mesmo. A identidade fatal do amante nada mais é que: sou aquele que espera."


Ai, a espera...a crueldade do relógio, que passa de um minuto a outro mais lento a cada vez. Os combinados que vamos fazendo com a gente mesmo, aumentando a cada minuto a tolerância com o atraso do outro. Com a ligação que não vem. Com um sinal que seja, que não vem. E quando vem, temporariamente esquecemos dessa dor a conta gotas. Até que nova chance de esperar aparece. E você, ser que espera, o que faz? Espera. Algumas esperas valem à pena. E umas se tornam até mesmo signos divertidos entre eu e esse outro, ao longo da nossa história.

Mas, e aquelas esperas sem esperança? Como apetites que róem as paredes do estômago. Fazem um rombo de incompreensão e dessentidos no lugar em que deveria estar apenas o peito. Ali, funcionando com seus órgãos. Sem doer metafisicamente. Por isso, Braga, te agradeço. Porque por suas palavras me desculpo. Me dispo da culpa por sentir ódio, em certos momentos da espera. Por elaborar, na realidade imaginária da minha dor, pequenos gestos de vingança, enquanto a ausência se torna cada vez mais presente na espera. Por fazer promessas definitivas. E muitas vezes cumprí-las. Por verem diminuídas as crenças no outro, generalizando as decepções. Por suas palavras vejo que não nos transformamos em monstros quando esperamos. A espera é o monstro que nos transforma. Por isso, já sugere Braga:

"Devia haver um número de telefone especial para a mulher que está esperando o homem chamar, reclamar providências, ouvir promessas, insistir, tocar outra vez, xingar, bater com o fone. Devia haver funcionários especiais, capazes de abastecer essa mulher de esperança de quinze em quinze minutos, jurar que todas as providências já foram tomadas, 'estamos seguros de que dentro de poucos minutos teremos alguma coisa a dizer à senhora...' (...)

Alívio...Sim, estamos desculpadas (e desculpados, meninos. Aqui o feminino é o sujeito universal do sentimento). Braga nos redime da nossa humanidade de quem espera:

"A mulher que está esperando o homem está sujeita a muitos perigos entre o ódio e o tédio, o medo, o carinho e a vontade de vingança.

(...) Porque a mulher que está esperando o homem recebe a visita do Diabo, e conversa com ele. Pode não concordar com o que ele diz, mas conversa com ele."

E nos bastaria a sabedoria para perceber a espera que trás consigo não apenas seus espasmos e pequenos infartos. Mas que traga aquele que vale à pena esperar. Esse, chega. Na promessa retratada por Klimt, cuja Esperança II embeleza esse post.

Quanto aos outros...ah, Quintana, fecho contigo: tantas vezes a esperança não passa de um urubu vestido de verde...

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Sobre delicadezas cotidianas...ou que deveriam ser.

Delicadezas...amo essa palavra. Seus sentidos e desdobramentos. A conheci desde menina, mas a senti na sua amplitude de significações já na balzaquice, e a poesia foi o pó de pirlimpimpim (ou o suquinho Gammy, prá quem lembra dos Ursinhos Carinhosos, prá metáfora ganhar mais força de tradição...rs) que me fez voar sobre as experiências que vivi, me oferecendo lentes de sensibilidade e graus de delicadeza para relacioná-las, me perceber nas redes da minha história, das histórias enredadas à minha, meus limites e fronteiras de sentimentos... E ela entrou, a delicadeza, no meu olhar. Os dias ficam mais lindos, mas de muitas formas, nos cansa mais o sentir, porque torna-se intensamente doloroso por vezes. A leitura de um poema. Escutar uma risada. Ver um por do sol intensificar o azul do céu nesses dias lindos de Brasília em um janeiro atípico. As referências poéticas, ao traduzirem essas belezas raras, e cotidianas, tornam as sensações tão maiores...e, como a vida é isso e tudo mais, também intensificam nosso sentir as ausências de delicadezas nos dias, nas atitudes das pessoas, conhecidas ou não. No cuidado com o outro. Na disposição de uma flor. Num trânsito esquizofrênico e neurótico. Numa fila de festa. Numa ligação prometida e não dada. Numa mensagem não respondida. Numa verdade não falada. Um gesto retido na racionalização do depois. Na naturalização de amizades de discursos, onde ser 'gente boa' não significa mais ter zelo pelo outro. Não, isso é para os antigos. Significa ser uma boa companhia. Só quando se está junto. E pronto. E são tantas as situações que poderiam ser aqui trazidas prá ilustrar esse fenômeno entristecedor: o sumiço das delicadezas cotidianas. E para homenagear o tema, o mais delicado dos poetas. Ele, que traduz a delicadeza no cotidiano, na sua necessária fluidez pelas brechas dos dias.

Falarei baixo
Para não perturbar tua amiga adormecida
Serei delicado. Sou muito delicado. Morro de delicadeza.
Tudo me merece um olhar. Trago
Nos dedos um constante afago para afagar; na boca
Um constante beijo para beijar; meus olhos
Acarinham sem ver; minha barba é delicada na pele das mulheres.
Mato com delicadeza. Faço chorar delicadamente
E me deleito. Inventei o carinho dos pés; minha palma
Áspera de menino de ilha pousa com delicadeza sobre um corpo de adúltera.
Na verdade, sou um homem de muitas mulheres, e com todas delicado e atento
Se me entediam, abandono-as delicadamente, desprendendo-me delas com uma doçura de água
Se as quero, sou delicadíssimo; tudo em mim
Desprende esse fluido que as envolve de maneira irremissível
Sou um meigo energúmeno. Até hoje só bati numa mulher
Mas com singular delicadeza. Não sou bom
Nem mau: sou delicado. Preciso ser delicado
Porque dentro de mim mora um ser feroz e fratricida
Como um lobo.
Se não fosse delicado
Já não seria mais. Ninguém me injuria
Porque sou delicado; também não conheço o dom da injúria.
Meu comércio com os homens é leal e delicado; prezo ao absurdo
A liberdade alheia; não existe
Ser mais delicado que eu; sou um místico da delicadeza
Sou um mártir da delicadeza; sou
Um monstro de delicadeza.

Elegia ao primeiro amigo, fragmentos, Vinícius de Moraes

(a foto, um presente de viagem, das delicadas, em todos os seus momentos)